domingo, 13 de junho de 2010


Seu nome era João Pinto da Silva. Por causa desse nome, desde a infância era ridicularizado pelos coleguinhas. A maioria dos Joãos vinha com um nome normal depois do primeiro, formando um nome composto. João Felipe, João Luís, João Marcos. O dele não tinha sido pensado assim. Era só João. Mas os colegas insistiam que aquilo era um nome composto, João Pinto. E o chamavam da segunda parte, para distingui-lo dentre seus xarás. E cresceu sendo chamado assim: “Pinto”, “pintinho”, “João Bilau”, dentre outros. Era um horror. Como naquela época não existia o conceito de “Bulling”, não havia muito que se podia fazer.

Pinto cresceu assim. Tinha ódio mortal daquele nome que não impunha respeito nenhum. Não tinha como ser o valentão do colégio, aquele do qual todos morriam de medo, mesmo com sua grande estatura e puberdade prematura. Que criança respeitaria um valentão chamado de Bilau? Tenha dó.

Infância e adolescência conturbadas contribuíram para que João entrasse na fase adulta sem muita confiança em si mesmo. Aconteceu que começou sua vida profissional como atendente de telemarketing.

Antes de chegar ao trabalho no seu primeiro dia, João decidiu que daria um basta em sua vida de opressão pessoal. Seria um novo João Pinto. Imporia respeito. Todos no trabalho iriam temê-lo.

Entrou em sua nova sala com andar imponente. Olhava para cada um dos outros atendentes com olhar ameaçador, que tinha praticado no espelho. As pessoas rapidamente olhavam para baixo, e evitavam encará-lo de volta. Sentou-se em seu gabinete e começou a telefonar, sendo curto e grosso com os almejados clientes, em alto e bom tom para todos ouvirem. Estabeleceu barreiras pessoais, dizendo para qualquer colega que viesse puxar papo para tomar cuidado, “Você sabe com quem está falando?”. A pessoa logo hesitava, pedia desculpas e ia embora. Não admitia filas para banheiros ou bebedouros, alertando que era melhor que todos ficassem espertos com a maneira como o tratavam.

Sua fama logo se espalhou. Toda a empresa o conhecia como o cara durão, e temiam-no. Boatos se espalhavam, e João ia de policial disfarçado do Bope até integrante da máfia italiana. Ele, vendo o medo que causava nas pessoas, se sentia invencível e respeitado, como sempre quis. Então cuidava de tratar todos com ainda mais aspereza. E os boatos se fortaleciam, já não mais ficando só dentro da empresa. Logo toda a cidade o temia.

Até que um dia, quando João estava sentado em seu gabinete, orgulhoso de sua reputação, chegou um homem encapuzado e deu dois tiros em sua cabeça. João, obviamente, caiu morto na hora. O crime foi investigado e chegou-se à conclusão de que muitos pensavam que João Pinto era uma ameaça, então não havia como chegar ao culpado.

Pelo menos, uma certeza nós temos: Pinto morreu feliz, com o orgulho de não ter se deixado amolecer mais.

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Dia do(s) namorado(s)

sábado, 12 de junho de 2010


Véspera do dia dos namorados, e ainda não sei o que vou dar pra Lu. Ótimo. Dois anos de namoro e eu não tenho nem ideia do que ela gostaria de ganhar.

Deitado na minha cama às 19:00 de sexta feira, abraçado aos travesseiros, divago: Quem sabe eu poderia dar a ela o esmalte verde-tendência que ela tinha babado na unha da Gabi, semana passada? Não, descartado. Quem é que dá uma coisa barata que nem esmalte numa data dessas? Eu, não.
Ou talvez aquela echarpe fúcsia da minha mãe que caiu tão bem nela, valorizou o pescoço e é hit do inverno.. Não, do jeito que ela é, pode ter dito que gostou só pra agradar a mamãe. Depois vai ficar com a echarpe encostada no armário dela, pegando traça, o que ela sempre faz.
E a bota 3/4 que ela anda sonhando.. não, infelizmente não posso me dar ao luxo de gastar 500,00 num presente, nem que seja pra Lu.

Me levanto com rapidez e jogo os travesseiros de volta pra cama, num movimento ressentido. Ô mulherzinha difícil da gente arrumar presente! Aliás, se tratando da Lu, não é só de arrumar presente, ela é difícil de convencer, difícil de entender, difícil de conviver. Resumindo, uma mulher difícil. Ainda assim, minha namorada.
Passo pela cozinha impaciente, agarro as chaves do carro e dirijo ao shopping. Não é possível que no paraíso capitalista eu não acharia nada que servisse pra moça. Essa era a cartada final.

Depois de toda a burocracia urbana (pegar ticket estacionamento, achar vaga, ligar alarme, subir N andares), me vejo no epicentro fashion. Tantas opções, tantas cores, tantos preços juntos... e nada me agradava. Na loja de lingeries, não imaginei a Lu usando nenhum dos acessórios; Na loja de eletrônicos, não consegui achar nada que ela fosse gostar; Na livraria, e essa mulher lê alguma coisa??
Já estava quase desistindo e fazendo um cartão com chocolatinho pra ela, olha que romântico, quando vi a esperança final. A loja de um antigo amigo meu de colégio, o Matheusinho. O cara montou o negócio assim que saiu do terceiro ano, começou pequenininho que só a gente via, prosperou, e hoje é administrador de uma grife feminina extremamente bem sucedida. Perdemos contato desde então.

Entrei à procura de algumas opções, mas o que encontrei ali foi apenas uma certeza: O Matheus estava mais lindo do que sempre esteve: Cabelos lisos, pretos como eu nunca vi, crescidos e jogados de lado. Olhos verdes que a gente tinha até vontade de se encolher ao encarar. Terno elegante, arrematado com um lenço no bolso. Barba por fazer, e o inegável ar de maturidade que ganhou com o tempo. Nesse instante, percebi que eu deveria estar agindo muito estranho olhando fixamente para ele, mas pelo modo que retribuiu o olhar, entendi que ele me reconheceu e se aproximaria.

Ok, assumo de uma vez por todas: Matheus foi um antigo caso meu no colégio.. mas essa época PASSOU, PASSOU, foi um período conturbado e eu não lembro dele mais, nem dele e nem de ninguém, eu não gosto nem um pouquinho de caras, imagina se minha mãe soubesse, eu namoro é a Lu! A Lu! A Lu é linda e maravilhosa e é minha namorado, digo, namorada!

Confuso, dei meia volta e não esperei o cumprimento de Matheus, que agora sorria. Voltei à loja de lingeries e saí de lá com uma sacola rosa de presente.
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Servantes


Meliza era uma mulher valente, bióloga recém formada, amante das tartarugas desde muito jovem. Nascida em Rio Acima, viveu por muitos anos isolada nos montes mineiros, mas foi em uma viagem ao litoral com seus colegas de escola que se descobriu.
Apaixonou-se pelo jeito manhoso dos nativos, pela água quente e azul, e pela idéia politicamente correta de vida sustentável. Ser ecologicamente consciente estava na moda e combinaria muito bem com seu estilo “hiponga”. Teve convicção de que seu destino era abandonar sua vida na Grande BH e criar uma nova em Trindade. A crise dos vinte anos se aproximava. Aquela seria uma atitude ousada o suficiente para fazer jus à fase que passava.
Quando desfazia as malas, reorganizava sua coleção de postais sentiu necessidade de conversar. Mel sempre foi comunicativa, a mais das quatro irmãs. Sempre viveu com cinco amigos pendurados no pescoço, mas agora morava sozinha em uma ilha de desconhecidos. Teve medo, quase ficou triste. Safa como sempre foi, decidiu matar saudade em um dos milhares de sites de relacionamento ao qual fazia parte. Foi assim que tudo começou.
Horas e mais horas que antes seriam gastas com o aprofundamento no estudo do habitat marinho, passaram a ser utilizadas em outros tipos de pesquisa. Estas não exatamente colaboram com o desenvolvimento científico, mas expressam uma característica marcante de Meliza Servantes: a curiosidade enrustida. Começou fuçando profiles de Orkut, depois googling colegas e amigos, depois amigos dos colegas e amigos. Blogs, Forms, dedicatórias em trabalhos de mestrado, entrevistas a programas esportivos; qualquer informação era útil. Tornou-se referência, ou fonte de informação. Conhecia alguns desconhecidos melhor do que Inteligência brasileira jamais seria capaz de conhecer. Em momentos de distração se entregava: “Ahhh, aquele rapaz da outra turma! Sei quem é. O pai dele trabalhou na Colômbia e foi transferido pra uma área controlada pelas Farc. Eles foram ameaçados de morte e voltaram pra casa”. “Como você sabe disso?” perguntariam assombrados e como sempre responderia “ELES” – “Alguém me contou, mas não lembro quem”.
Mel tinha muitos talentos: exímia nadadora, fantástica doceira, super habilidosa em trabalhos manuais e ainda era detetive nas horas vagas.
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Os fios do bigode.

sexta-feira, 11 de junho de 2010



  Se o atual Presidente do Senado, José Sarney, tem como lema particular a frase “Bem ou mal, falem de mim”, provavelmente é o político bilionário mais satisfeito do país. Em meio a tanta baderna ideológica e corrupção vividas no Brasil dos últimos três anos, Sarney tem o privilégio de ocupar, todas as semanas, o topo do ranking Celebridades Mais Detestadas Por Adultos E Adolescentes Brasileiros.

  O motivo desse disseminado ódio é causado pela consolidação do Império Sarney do Norte, divisão brasileira que abrange o Maranhão e o Amapá e tem adquirido tamanha força política a ponto de possuir um poder Executivo praticamente autônomo. A família Sarney, nestes dois estados, além de controlar o sistema administrativo e ser detentora dos mais importantes meios de comunicação (como o jornal Estado do Maranhão, a TV Mirante e as rádios Mirante AM e FM), ajuda os moradores a decorar rapidamente os nomes dos ambientes que freqüentam. Em São Luís, por exemplo, qualquer pessoa pode se dirigir ao Tribunal de Contas Roseana M. Sarney por meio da ponte José Sarney,avenida Presidente José Sarney e, depois, passar pela rodoviária Kyola Sarney. Isso ainda sem contar as dezenas de vilas,cidades ruas que carregam este maravilhoso sobrenome.

  Entretanto, o que mais toca as impecáveis moral e ética dos cidadãos brasileiros é a atitude do Presidente do Senado em relação aos meios de construir seu império. Desde cedo, ignorando a noção de mérito próprio como meio para atingir objetivos, José Sarney começou sua carreira como oficial de gabinete do governador Eugênio Bastos (papai que conseguiu) e, com 24 anos, já era o quarto suplente de deputado federal, apesar de nunca ter sido sequer vereador. Seu comportamento oportunamente nepotista foi crescendo ao longo do tempo e lhe rendeu diversos frutos assustadores, como a criação, em 2009, de 4000 vagas no Senado sem o pré-requisito de concurso como o meio de ingresso. Devido a aberrações como essa, o político até ganhou, na internet, o apelido carinhoso de Bigode Podre, em referência à imensidão de sujeira e pessoas incompetentes que esconde debaixo de seu bigodinho estilo Hitler Nordestino.

  Uma vergonha para nosso amado Brasil. Como é que alguém que nasceu num país tão correto e justo tem a petulância de tirar vantagem em detrimento de outrem?E , depois, ainda ser capaz de mentir para todo mundo?



  Bom, gente, a vida secreta que comentarei hoje não é propriamente a do Sarney, mas a de todos os brasileiros que criticam fervorosamente as figuras públicas comumente chamadas de “mau-caráter”, mas praticam pequenos atos corruptos todos os dias. Por trás de cada “Fora Sarney”, “Xô corrupção” ou “Queremos justiça!”, existe um cidadão que certamente já mentiu para um grande grupo,deu um jeito de passar a perna no Estado, já tentou ajeitar a situação para beneficiar um ente querido ou o fez em benefício próprio. Filho que junta dinheiro que a mãe dá para o almoço e compra um ingresso para show no fim do mês está desviando verba. Quem tira a maior parte do trabalho escolar do Google e finge que não fez nada de errado também é o maior cara-de-pau. E a furação de filas de banco?Sonegação de impostos?A compra de CDs e DVDs piratas?

  Fico impressionada de ver como não hesitamos em descer a lenha nessa “cambada de ladrão” da política e não paramos para pensar a quantidade de atos ilícitos que também cometemos, mesmo que em proporção menor. Possuímos uma vida cheia de mentiras, dissimulações, e pragmatismo e ainda tentamos escondê-las de todos, inclusive de nós mesmos. E dormimos bem, acreditando que a podridão só se concentra no Senado, no Palácio do Planalto, no Congresso, nas favelas, nas cadeias, nos Tribunais.

  Claro que os efeitos das ações de pessoas como o Sarney tem dimensões muito maiores e mais prejudiciais à sociedade do que alguns atos reprováveis que produzimos. Contudo, ainda sim me parece hipocrisia mostrar fúria tão veemente em relação ao mau-caráter alheio enquanto o tal “jeitinho brasileiro”,que todos temos e muitos de nós se orgulham, não é nada menos que um dos fios podres do bigode do Sarney: sujo.Indigno. Quando junto a outros, capaz de formar os mais expressivos escândalos de corrupção e roubo. E, por mais que possamos tentar retirá-lo de nós a cada instante que o percebemos, ele continua a crescer, insistentemente, bem debaixo de nosso nariz.





Fontes de informação:
Livro "Honoráveis Bandidos", de Palmério Dora
Aula de Teoria do Estado II- nov.2009
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Em dois empregos

quarta-feira, 9 de junho de 2010


Era uma vez um cara. Homem, 40 anos, trabalhador. Seu trabalho era bastante incomum: produzia suas própria revistinhas e as vendia no sinal. Você pode estar pensando: “Que isso! O cara rala pra fazer as revistinhas e vende no sinal, ninguém deve dar valor ao trabalho dele ” Que nada ! Seu jeito diferente de vender o torna bastante conhecido na cidade.
Anda por aí, com uma big placa amarela que divulga exatamente como é feito seu trabalho e o nome da edição que está sendo vendida. Porem, contudo, todavia, entretanto, descobri que falta uma informação nessa tal placa amarela.
Era uma quarta-feira de manha, exatamente 5:30 AM, e eu estava no ônibus que pego todos os dias para ir ao trabalho. Todos que estavam nele dormiam, tentando aproveitar os poucos minutos que os restavam antes do trabalho árduo. Eu não conseguira dormir aquele dia. Chegamos ao centro da cidade, e passamos em frente o Pirulito da Praça Sete. “Mas que estranho, tenho CERTEZA de que está faltando um pedaço! Ele não fica mais fininho na ponta? Ou será que todos esses anos tive essa ilusão? ” Resolvi me certificar e olhei novamente para o monumento. O que vi em seguida me encheu de pensamentos estranhos pelo resto do dia. Era um homem, eu já havia o visto antes. Era mais velho, um pouco. Mas ele voava! E o mais espantoso: trazia o complemento do Pirulito da Praça Sete na mão! Eu o observei, estupefato, e o vi colocar o pedaço do monumento em seu exato lugar, e ir embora, como se fizesse aquilo todos os dias.
“Não, devo estar ficando louco!” Meus companheiros de ônibus continuaram dormindo, sem sequer imaginar o que acabara de acontecer.
Chegando ao trabalho, agi normalmente, cumpri todas as minhas obrigações. Alguns amigos mais próximos comentaram que eu estava meio avoado. “Briguei com a patroa!” dizia. Não contaria nada a eles, me achariam louco! Mas a verdade é que a cena não me saía da cabeça.
No ônibus de volta pra casa, procurei encontrar outro acontecimento estranho. Nada.
“Será que eu dormi por um instante e sonhei com aquilo? Não pode ser!” Foi tão... real!
Os dias se passaram, e pouco a pouco fui esquecendo. Aceitei que provavelmente sonhara. Parei de pensar no assunto.
Na semana seguinte, sexta-feira, 18:30 PM, voltava do trabalho. Cansado mas feliz, pois teria folga no sábado. “Que saudade de descansar dois dias inteiros.”
Olhei pela janela, admirando a Praça Raul Soares e seu engarrafamento.
- OLHA A REVISTIINHA!
“Aquele cara da placa amarela de novo! Acho que vou comprar uma dessas pro meu menino, ele vai ficar feliz.”, pensei. Acenei para o vendedor, e tive a sensação de que o conhecia de algum lugar. Foi extremamente simpático comigo, desejei que vendesse muito. Quando olhei a capa, que susto! Era exatamente a cena de quarta-feira de manha, com apenas uma diferença: o herói que devolvia o pico do Pirulito era jovem, musculoso, e o que de fato o fizera era mais velho, e com um corpo mais modesto.
Será que o vendedor também tinha visto aquilo? Afinal, eu não era louco nem havia sonhado? Olhei para ele, a procura de uma resposta, e tudo que obtive foi um sorriso compreensivo, como um sorriso que lê seu pensamento.
Calma... “Agora tudo faz sentido! É ele! O vendedor é o herói! Realiza suas proezas e depois as conta em formas de resvistinha, fazendo do personagem jovem e másculo sua” Identidade secreta “ “
O procurei de novo, para retribui o sorriso e o dizer que seu segredo estaria a salvo comigo, mas lá estava ele, correndo entre os carros, vendendo seu produto.
“ Puxa, eu que acho meu trabalho difícil, imagina o desse cara ! Na placa dele devia é estar escrito: SUPER HERÓI EM DOIS EMPREGOS.”
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Coma amarelo com bolinhas roxas

terça-feira, 8 de junho de 2010


Volta e meia, pensamentos como "Imagina o professor de Gramática bebado... "O solteirão de Inglês tem vida?" "Como será que é minha professora de Física com os amigos?" ressoam em nossa mente desocupada de aluno do fundamental. Na maioria das vezes não nos damos o trabalho de prolongar o assunto, quando o fazemos, a única finalidade é a zombaria com os colegas de classe. Normalmente parte das historinhas se tornam pequenos boatos que logo são substituidos e, consequentemente, esquecidos.
Até hoje, conheci apenas um professor que fugiu desse padrão. Abílio era um homem altíssimo, magro, com uma barba lisa, longa e rala, cabelos pretos, beirando a calvice, pele clara e olhos estupidamente azuis. Usava sempre uma calça absurdamente estampada e uma blusa branca um pouco transparnte, permitindo a visão de uma espéce de mandala desenhada nas costas. Lecionava sentado de costas para a turma, escrevia tudo ao contrário, só passava a matéria se o o desenho do quadro lembrasse um triangulo, ocilava a voz costantemente e conduzia o rendimento da aula de acordo com o clima.
Era apenas um substituto, o que facilitou a propagação de histórias. Nas primeiras semanas a criatividade reinava, Abílio ia desde fugitivo da prisão até agente do FBI. Como nossa escola era muito monótona e o professor ultrapassava o limite do bizarro, nos acostumamos a inventar histórias novas toda semana.
Depois de semanas de chuva, tivemos uma quinta ensolarada, tempo pefeito para uma redação avaliativa. Resolvi, então, abusar da sorte: "A vida secreta de Abíio". Descrevi a vida de um alienigena que veio à Terra para desvendar os mistérios da Soja, único produto terrestre que os Gimusquinovanios desconheciam. Contei como ele havia possuído um corpo humano, desaparecido com Genália -professora do 8o ano- só para pegar seu emprego, como andavam suas pesquisas e ainda inventei uma opiniao sobre os terráquios. Tudo isso no formato de um diário de viagem.
No dia seguinte, quando cheguei ao colégio, estava tudo escuro, vazio e frio, cenário perfeito para eu pensar que estava sonhando e seguir até a sala do esquisito. Abri a porta e o encontrei com minha redação na mão. "Acha certo, Murilo, invadir a privacidade dos outros?" Foi a última frase que ouvi, depois disso acordei com dor de cabeça, com o corpo vermelho, dolorido e ardendo muito, estava morrendo de sede e careca. Olhei ao redor e vi o quarto que me abrigou nestes últimos 23 anos: paredes amarelas com bolinhas roxas, um computador turquesa e uma cama amarela com bolinhas roxas. Não espero mais estar sonhando, mas se eu estiver em coma, quem sabe...
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Imagina só...

segunda-feira, 7 de junho de 2010


Era um dia como outro qualquer. Minha esposa ainda não tinha acordado... Pois, como sempre, eu acordei, sozinho, às 5:15 da manhã! Que saco ter de trabalhar tão cedo e ainda FAZER CAFÉ!! Calma... respira... Lavei o meu rosto pensando o que ia ser se todo mundo soubesse o tanto que eu sou preguiçoso... Imagina só!
Depois de lavar meu rosto, tomei um banho, me vesti pro trabalho. Carlice e os meninos começavam a se levantar. E eu fui pra cozinha fazer o café, e o "ovo com queijinho" que os meninos adoram. E só comem o meu!!... Quer dizer... Isso porque eles nunca comeram o de mais ninguém (hehehe). Porque eu sou um dos piores cozinheiros que eu já vi! Imagina só... Os meninos, com certeza, iam preferir o "ovo com queijinho", que só eu sei fazer, da mãe deles...
Pena que, desta vez, não tive muito tempo de receber os elogios do João e do Pedro... Devia sair mais cedo para o trabalho. Meus funcionários estavam começando a chegar atrasados em demasia. Nada demais... Só precisavam de um exemplo. Só precisavam nada! Eu é que não consio fazer nada com eles... Lembro-me muito bem, quando tive que demitir a Norminha, foi uma semana me preparando pra fazer a cara de um chefe austero. Ah... Se ela soubesse que eu sou um coração de manteiga... Imagina só, isso! Estaria trabalhando comigo, mesmo rendendo pouco, até hoje! Enfim... Exemplo dado... Acabou que eu fui olhar no ponto e vi que só uns dois chegaram atrasados por algum tempo... Consegui conversar com eles e vi que eram justificados os atrasos.
Deu onze! Saí da empresa pra buscar os meninos no colégio. Chegando lá... Gente... que fofo! Eles estavam falando que eu conseguia carregá-los sem parar o dia inteiro, que eu era 'super-forte' e não me cansaria... Eu tive de dar uma veracidade pra história deles né? Cheguei gritando! pegando-os no colo e jogando-os pro ar! Mas fiquei escondendo minha cara de dor nas costas... Vê se eu não ia esconder. Imagina só! Os amigos iam zombar muito deles se soubessem que eu não sou tããão forte assim...
Deixando os meninos em casa eu fui para a esgrima com meus amigos... No meio da conversa eles começaram a falar de café-da-manhã. Eu não sei porque a gente foi parar nesse assunto... Sabe? coisa de amigo mesmo... conversa de tudo! Mas eles ficaram falando de como a 'patroa' fica xingando que eles nunca se levantam enquanto elas fazem o café... Se rindo de como conseguem ficar impunes toda manhã... Cada um tem sua tática! Morri de rir!Até que eles me perguntaram como é que eu faço pra enganar a Carlice todo dia... A mentira escapou pela minha boca. Falei que sempre ia pro banheiro e ficava um temp"inho" a mais no banho. Eles ficaram nas gargalhadas! Eu fiquei meio sem graça de ter mentido... Mas que bom, né? Imagina só, como é ser o único 'pau-mandado' da patrôa do grupo!
Fato é que, depois da esgrima e de carregar "as crias"... Precisei de tomei um Tylenol... Estava um caco! Mas chegando em casa... João ficou querendo me mostrar os desenhos, falar dos deveres e contar das (oito) namoradinhas... Não estava com o menor humor, nem com a menor paciência... Mas escutei com cara de interesse... Imagina só, que espécie de pai seria eu se não fizesse essas coisas?
Mas eu prcisava descansar... E ninguém melhor do que a Carlice pra me ajudar, né? Pedi a ela uma massagem 'daquelas'! Ela fez... e a gente foi dormir... Na cama, virado pro espelho do quarto, eu fiquei pensando em como todo dia é a mesma coisa... e como eu fico cada vez mais longe de ser feliz... é... acontece...
Não!!! Eu não tenho o DIREITO de reclamar da vida com uma família tão bonita! Filhos que me amam tanto!! Um trabalho que os sustentam... Um hobby tão prazeroso... Eu não posso ficar me queixando da rotina. E se a Carlice descobre que estou tão insatisfeito!!! Imagina só!!!
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